Revista Historiador. Número 02. Ano 02. Dezembro de 2009
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HISTÓRIA DO BRASIL: VASTO CAMPO DE PESQUISAS E OPORTUNIDADES
Em sua segunda edição, a REVISTA HISTORIADOR traz um conjunto de artigos sob
o tema "História do Brasil" que explicita a crescente demanda e interesse pela história
brasileira, seja por parte de pesquisadores e historiadores, do próprio público leitor (e
editoras), ou mesmo do público externo. A iniciativa desse grupo de jovens historiadores –
graduandos e pós-graduandos – vislumbra tal empenho pelos temas brasileiros (desde a
História colonial até o Tempo Presente), concretizado nessa publicação.
O crescente interesse pelos assuntos brasileiros pode ser entendido como reflexo do
momento político do país: as duas décadas da Nova República trazem à tona a construção
da estabilidade política brasileira (seja pela prática democrática, seja pela solidificação das
instituições), notadamente nos governos dos Presidentes Fernando Henrique Cardoso e
Luis Inácio Lula da Silva. Adicionalmente, o estudo e a pesquisa dos períodos anteriores,
complementarmente, se tornam cada vez mais vitais no processo de entendimento da
realidade brasileira do século XXI.
Um bom exemplo dessa demanda é a nova geração de historiadores (conhecidos
como brasilianistas) que tem surgido nos Estados Unidos a partir da nossa
redemocratizaçã
esse novo grupo de intelectuais norte-americanos interessados em entender o Brasil não se
envolve em questões macro, como fizeram seus antecessores nas décadas de 1960 e 1970,
como Thomas Skidmore e Alfred Stepan, mas em estudos de áreas bastante específicas.
Essa nova onda de interesse pelo Brasil notada em instituições de ensino também se
concretiza com a criação de Cátedras e Centros de Estudos Brasileiros, como nas
Universidades de Illinois (Estados Unidos), Leiden (Holanda), Oxford (Inglaterra) e a criação
da Fundação Cultural Hispano-Brasileira, na Universidade de Salamanca (Espanha).
Segundo estimativa da Associação de Estudos Brasileiros (BRASA), existe atualmente 15
desses centros especializados em Brasil nos EUA e na Europa, além de o país ser o foco
também em outros centros de pesquisas dedicados à América Latina.
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Por aqui, nota-se um sensível aprofundamento das pesquisas referentes aos agentes
envolvidos no desenvolvimento político-econô
edição – em linha cronológica – Gabriele Rodrigues de Moura (A representação em
Conquista Espiritual sobre a invasão e a destruição da Província do Tape) apresenta um
breve histórico sobre as primeiras Missões na Província do Tape (que hoje forma o atual
Estado do Rio Grande do Sul), pertencente à Província Jesuítica do Paraguai (entre os anos
de 1626 e 1638). O estudo volta-se especificamente para as representações presentes no
livro Conquista Espiritual, do jesuíta Antônio Ruiz de Montoya, escrito durante sua estada na
Corte de Madrid.
Daniel Oliveira, no trabalho intitulado "Doença ou Estigma social? Enfermos venéreos
em hospitais de Porto Alegre no final do século XIX" identifica – social e historicamente – o
perfil dos enfermos acometidos por doenças venéreas que receberam assistência médica na
Santa Casa de Misericórdia e no Hospital da Sociedade de Beneficência Portuguesa, ambos
de Porto Alegre, durante os anos de 1881 a 1892. A realização da pesquisa através de
análise quantitativa (informações transcritas de livros de entradas nas enfermarias) é rica no
sentido de contextualizaçã
inseriam na sociedade porto-alegrense daquele período, considerando assim, diversos
aspectos daquela sociedade, como o pensamento social/cientí
transformações sociais que se desenvolviam e o período de fim da escravatura,
industrializaçã
cortiços na cidade.
O artigo apresentado por Fábio Bastos Rufino (História, Direito e Política: Arnaldo
Süssekind e a consolidação das Leis do Trabalho no Brasil – um olhar retrospectivo)
analisa, a partir de fonte oral – entrevistas realizadas com o magistrado Arnaldo Süssekind –
, o processo de criação e constituição da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) no
Brasil, com o objetivo de identificar no sujeito histórico elementos da Cultura Política do
Estado Novo.
Em "Economia e Política: Reflexões sobre os Governos Vargas, JK e João Goulart",
de Fernanda Melchionna e Silva e Marcus Vinicius Martins Vianna discute as características
do processo de industrializaçã
por Juscelino Kubitscheck e chegando em João Goulart, traçando um paralelo entre as
políticas desenvolvimentistas
trabalhadores em cada época.
Visão essa que é complementada por Débora Specht, Maria Helena Marin e Priscila
Farias dos Santos, em "Bens Duráveis: a industrializaçã
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Kubitschek (1956-1960)", ao analisar a política econômica do governo Juscelino Kubitschek
– desde a implantação do Plano de Metas até seus resultados a curto prazo – ponderando
sobre a intensa industrializaçã
automóveis), com a entrada maciça de capital estrangeiro.
Como conseqüência direta desse processo de industrializaçã
brasileira teve um salto nas décadas de 1950 e 1960: nesse sentido, o artigo "A Vila do IAPI
no contexto de urbanização e industrializaçã
Cristina Didonet Nery Tavares da Cunha Mello e Laura Regina do Canto Leal apresenta tal
desenvolvimento urbano na cidade de Porto Alegre, tendo como foco o Conjunto
Residencial Vila do IAPI, dentro do bairro Passo d' Areia (como início do processo de
urbanização da várzea do Gravataí - parte da Zona Norte da capital gaúcha). O projeto
inovador era baseado nos moldes das cidades-jardins européias para operários, onde os
conjuntos habitacionais tinham espaços específicos para casas, jardins e áreas verdes, com
poucos traços geométricos, diferenciando-
projetos.
Dois artigos trazem reflexões sobre agentes diretamente envolvidos no período da
Ditadura Militar: Priscila Farias dos Santos, em "A participação dos Freis Dominicanos no
Regime Militar Brasileiro" analisa a participação de um grupo de freis da Ordem dos
Dominicanos, na oposição ao Regime Militar, salientando que a atuação política e social dos
dominicanos no Brasil não se deu apenas a partir do golpe de 1964; na verdade, muitos de
seus membros eram oriundos de grupos da Ação Católica, criados ao final da década de
1940, onde já se podia observar o início da divisão no catolicismo brasileiro. Dentro da
esquerda católica brasileira, esses frades podem ser vistos como uma dissidência, pois
foram os únicos ligados diretamente à Igreja Católica que se envolveram com um
movimento guerrilheiro. Em complemento a essa discussão, o artigo de Giovana Inácio dos
Santos, Josiel Eilers Goulart e Marcos Emílio Ekman Faber (Teologia da Libertação:
resistência intelectual nos anos de chumbo) considera o surgimento e o desenvolvimento da
Teologia da Libertação no Brasil e a forma com que esta se desenvolveu na sociedade
brasileira, através das Comunidades Eclesiásticas de Base. Segue-se uma breve discussão
acerca do surgimento da Teologia da Libertação não como simples teoria, mas como uma
teoria orientada para a prática, fazendo uma análise histórica e social da realidade em que a
comunidade está inserida, porém, sem abandonar seu caráter cristocêntrico.
Na contemporaneidade, Alexandre Prinzler Karpowicz analisa o discurso midiático a
partir de uma série de matérias do Jornal Zero Hora, denominada "O X da educação", sobre
o modo como ocorrem os processos educacionais de alfabetização no interior das escolas
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do Movimento Sem Terra, no artigo "Problematizando os discursos da mídia eletrônica
(jornal) a respeito do mito de uma educação para o conflito na pedagogia do Movimento dos
Trabalhadores Sem Terra – MST". O autor discorre sobre os discursos formadores de
opinião sobre a pedagogia das escolas do MST, a partir de Michel Foucault não como
conjunto de signos (ideias, opiniões), mas como práticas que formam sistematicamente os
objetos de que falam e o autor questiona: por que analisar a dimensão histórica de um
movimento social?
Seguindo a linha de análise a partir dos Estudos Culturais em Educação e dos
estudos também desenvolvidos por Michel Foucault, o artigo de Fabio Ricardo Bastos
Gomes (Práticas discursivas de um "estrangeiro" na educação: problematizando os
discursos de Gustavo Ioschpe veiculados na revista VEJA e no Jornal Zero Hora),
problematiza o espaço concedido aos profissionais das mais diversas áreas do
conhecimento para explicitarem suas opiniões sobre a educação no país, prescrevendo
possíveis soluções para a resolução dos problemas. Para tanto, através da análise textual,
define como foco de investigação as práticas discursivas produzidas pelo economista
Gustavo Ioschpe sobre a educação brasileira presentes em suas colunas na revista VEJA e
no jornal Zero Hora, veiculadas em sua versão eletrônica, como produtoras de regimes de
verdades pedagógicas que apontam como causa da dita crise do ensino à formação
acadêmica dos professores.
No artigo "O processo de formação das atitudes políticas dos jovens da Assembléia de
Deus em Porto Alegre/RS", André Luis dos Santos trabalha com os efeitos do dogma
religioso no processo de socialização política dos jovens da Igreja Assembléia de Deus em
Porto Alegre. Para tanto, o autor parte da premissa de que a práxis discursiva de algumas
denominações evangélicas mais ortodoxas (do ponto de vista do controle social exercido
sobre o conjunto dos adeptos), possa influir diretamente no processo de socialização política
dos jovens que freqüentam mais assiduamente os templos e atividades afins. A hipótese é
de que quanto mais elevado for o dogmatismo, maior será a probabilidade de
desenvolvimento de uma personalidade orientada para a desvalorização da política. A
própria Teologia da Prosperidade é analisada a partir do dito tom de convencimento que
introduz (necessário para transformar o fenômeno da conversão evangélica, no Brasil, nas
últimas décadas), assim como a introdução de representantes da maioria dessas
denominações na esfera política.
Por fim, numa análise profunda sobre a educação patrimonial e o uso da cultura
material dos museus no interior do Rio Grande do Sul, Carlos Augusto Trojaner de Sá
apresenta o artigo "A cultura material na cidade de Nova Petrópolis: educação patrimonial
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nos museus", com a análise de como os museus de Nova Petrópolis envolvem a sociedade
com a temática da imigração alemã, fazendo uma relação muito significativa entre a cultura
material e a educação patrimonial. O resultado disso é uma construção do conhecimento
através dos museus e a relação de como estão sendo abordados (e vinculados) os objetos
dos primeiros pioneiros alemães (cultura material) com a educação patrimonial realizada nos
museus dessa cidade.
Assim, a leitura desses artigos possibilita a percepção da importância da História do
Brasil e dimensiona o quão valorosa é a presente iniciativa no sentido de incentivar os
graduandos e pós-graduandos às pesquisas e publicações, não somente como forma de
qualificar sua inserção no mercado de trabalho, mas também como possibilidade de
aprofundamento das mesmas, em níveis de strictu sensu (Programas de Mestrado e
Doutorado).´
Kamilla R. Rizzi
Licenciada em História e Mestre em Relações Internacionais/
IFCH/UFRGS. Professora convidada do curso de Especialização Lato Sensu
em História do Brasil Contemporâneo da FAPA e Professora licenciada de Relações Internacionais da FAACS.
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