Mulheres do Brasil, um longo caminho...

sexta-feira, 16 de julho de 2010


Brasil é um dos mais desiguais na questão feminina entre países latino-americanos
Roberta Lopes - Agência Brasil


O Brasil ocupa o 15º lugar no índice que mede a igualdade das mulheres nos países da América Latina. O índice, chamado de ISO-Quito, tem como base os compromissos assumidos pelos países da região durante a Conferência Regional da Mulher, realizada em 2007, na capital do Equador, Quito.

O índice brasileiro foi divulgado hoje (15) pela organização não governamental (ONG) Articulação Feminista Marosur e conta com dados da Comissão Econômica para o Caribe e a América Latina (Cepal), com base no ano de 2007.

Para seu cálculo, são avaliadas três dimensões: política, que trata da paridade na tomada de decisões; econômica, que trata da paridade econômica e do trabalho; e social, que trata do bem-estar das mulheres. Vinte e dois países tiveram seus índices medidos, mas só 16 apresentaram as informações completas.

O Brasil conseguiu a melhor posição no índice que mede a paridade econômica e do trabalho, ocupando a segunda posição nos dois quesitos, entre os 16. O país mais bem colocado em relação à paridade econômica é o Uruguai. No índice que mede o bem-estar das mulheres, o Brasil ficou em oitavo lugar e naquele que mede a tomada de decisões, o Brasil ficou em 20º.

Na média das três dimensões, que resulta no índice ISO-Quito, o Brasil ficou em penúltimo lugar, à frente apenas da Guatemala. O país que teve a melhor média ISO-Quito foi a Argentina, seguida da Costa Rica. Em terceiro, ficou o Chile.

http://www.sul21.com.br/index.php/permalink/direto_redacao/883 15.07.10 - AMÉRICA LATINA

Articulação apresenta lista países que mais respeitam os direitos das mulheres


Natasha Pitts *
Desde o dia 13, cerca de 200 mulheres latino-americanas e caribenhas estão reunidas em Brasília, capital federal do Brasil, para participar da XI Conferência Regional sobre a Mulher da América Latina e do Caribe (Cepal). O evento, que segue até amanhã (16), teve em sua programação a apresentação do ISOQuito.

A cada três anos, a Cepal realiza uma Conferência Regional da Mulher a fim de avaliar a situação da garantia de direitos da população feminina na América Latina e Caribe e definir novas propostas que devem ser colocadas ao Governo de cada país. Ao final do evento, é construído um documento com os compromissos assumidos pelos governos dos países participantes para garantir os direitos das mulheres em sua totalidade.

A última Conferência, realizada em 2007, no Equador, resultou no 'Consenso de Quito'. O documento, entre outros compromissos, concorda em adotar medidas de ação positiva para garantir a plena participação das mulheres nos cargos públicos e representação política, em formular programas integrais de educação pública não sexista, promover o respeito aos direitos humanos integrais das mulheres indocumentadas, esforçar-se para firmar, ratificar e difundir a Convenção para a eliminação de todas as formas de discriminação contra a mulher e seu Protocolo Facultativo, entre outras decisões.

Apesar da disposição demonstrada pelos governantes e seus representantes durante a X Conferência, muitos países não cumpriram com o que foi acordado. No intuito de identificar quais nações efetivamente avançaram na garantia dos direitos integrais das mulheres, a Articulação Feminista Marcosul realizou o ISOQuito, um levantamento que mediu os avanços nos compromissos firmados em 2007.

"O ISOQuito é uma ironia, pois é um mecanismo que faz um ranking dos países da América Latina e do Caribe que estão mais perto e dos que estão mais longe dos compromissos firmados durante a Conferência da Mulher no Equador", esclareceu Luci Garrido, representante da articulação Feminista Marcosul.
De acordo com Luci, uma equipe técnica analisou dados qualitativos e quantitativos cedidos pelos próprios países e dados oficiais do Observatório Regional de Paridade de Gênero da Cepal para detectar quais nações mais se aproximaram da execução dos seus compromissos.

Neste ranking, a Argentina ficou no topo, e foi nomeado o país latino-americano que mais respeita os direitos das mulheres. Costa Rica, Chile, Uruguai, Panamá e México também ficaram em posições elevadas por cumprirem parte das promessas. Já o Brasil ficou em penúltimo lugar por não haver avançado nas dimensões básicas fundamentais para a garantia do exercício dos direitos das mulheres. O país só ficou abaixo da Guatemala.

Índice de bem-estar das mulheres, índice de paridade econômica e índice de paridade na tomada de decisões foram os aspectos que guiaram a avaliação e a construção do ranking. Nestes três eixos, o Brasil se encontra em pior situação no que diz respeito à autonomia política feminina, o que quer dizer que a desigualdade nas tomadas de decisões continua sem grandes avanços.

"Esperamos que o ISOQuito tenha servido para chamar a atenção e para que os governos da América Latina e Caribe concretizem suas promessas e as traduzam em mudanças e não apenas em palavras. Esperamos ainda que ao construir o Consenso de Brasília possamos segui mais adiante de Quito", encerrou Luci.

* Jornalista da Adital
http://www.adital.org.br/site/noticia.asp?lang=PT&cat=8&cod=49481
Fonte: historiacultural_go
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Artigo: A FALSA HISTÓRIA NAS ESCOLAS MILITARES III

quinta-feira, 1 de julho de 2010


DIRETO DA REDAÇÃO
Publicada em:30/06/2010

A FALSA HISTÓRIA NAS ESCOLAS MILITARES (III)
URARIANO MOTA

Recife (PE) - Eu já me havia prometido não mais voltar ao assunto. Melhor dizendo, volver, nunca mais. Mas prometo que esta será a última vez, ainda que o assunto não se esgote aqui.

E por que volto? Meia-volta faço porque nesta semana fui honrado pelo senhor Hiram Reis, coronel e professor do Colégio Militar de Porto Alegre, que escreveu uma catilinária em que divulga até o meu email, para melhor chamamento à ordem do colunista. Na parte de interesse público, depois de chamar este autor de alienado, idiotizado, o professor toca em questões mais graves, como estas:

"Atualmente, o Colégio Militar de Porto Alegre é a única escola de educação básica do País a possuir um observatório astronômico (Observatório Capitão Parobé) dotado de um telescópio robótico de última geração...

Seus formandos têm o mais alto índice percentual de aprovação no vestibular da UFRGS entre as escolas gaúchas (42% em 2005, 44% em 2006, 44,79% em 2007, 61,11% em 2008, 48,70% em 2009 e 57,45% em 2010)...

Do `Colégio dos Presidentes' saíram as únicas duas gaúchas selecionadas para integrar as respectivas turmas pioneiras de mulheres da Aeronáutica.."

E por aí segue. Entenderam? A uma crítica dirigida ao nível da História ensinada aos alunos militares, o professor coronel responde com as glórias do Colégio Militar em outros campos, que em nenhum momento entraram em discussão. Para concluir, muitos parágrafos depois: "Desafio o Sr. Urariano Mota a apresentar outra Escola Pública que apresente resultados similares aos do nosso querido `Casarão', que jamais tenha desencadeado qualquer tipo de movimento `grevista', que no dia do seu aniversário seja capaz de fazer que seus ex-alunos, jovens e sexagenários, civis e militares, desfilem emocionados e saudosos"

Meu Deus, o sentimento de casta expresso acima é constrangedor. O coronel professor quer um ranking, uma guerra entre escolas públicas, para saber qual a melhor. Todos amam a escola de juventude, coronel. Eu mesmo passei pelo glorioso Alfredo Freyre, de um subúrbio recifense, onde jamais tivemos observatórios, com exceção dos olhares que dirigíamos às pernas da professora Janita. Nesse colégio tivemos um mestre insuperável, um formador de consciências, o professor Arlindo Albuquerque, espancado e preso pelos militares no primeiro de abril de 1964. Que feito indelével, histórico, existe maior que esse? Que coisa bela era o mestre a declamar "Sur la liberté de la conscience".

O professor Arlindo não entra aqui por acaso. Ele faz parte da história que é oculta, filtrada e corrigida dos alunos das escolas militares. Ele vem ainda porque nos ensinou que a nossa pátria não é a maior nem a melhor nem a mais perfeita. A nossa pátria é apenas o lugar onde nascemos e sentimos o gosto de feijão e do primeiro beijo. Que a nossa pátria, assim, é a própria humanidade, aquela que passa por Rousseau, o escritor que o mestre Arlindo nos lia em voz alta e flamejante a nos ensinar que todos os homens são iguais na terra.

O espaço está no fim e quase encerro sem dizer que esta semana, por dever de ofício, me vi obrigado a ler três livros da Biblioteca do Exército: "O revisionismo histórico brasileiro", de Maya Pedrosa; "A chama da nacionalidade", de Marco Antonio Cunha; e.... "Não somos racistas", do filósofo Ali Kamel. Sim, o livro do pensador da Globo. Iria ler, da Biblioteca do Exército ainda, o "Poderosos e Humildes", do simpático Vernon Walters, que recebe esta apresentação:

"O autor, bastante conhecido no Brasil, é pessoa da absoluta confiança de vários presidentes dos Estados Unidos, dos quais recebeu uma série de missões de salvamento no plano internacional. Esta é a obra de um hábil contador de histórias, com qualidades de analista, desenvolvidas nos serviços de inteligência americanos, no exército e no serviço diplomático".

Não seria mais simples apresentá-lo como o homem da CIA no Brasil, no golpe de 1964? Melhor terminar com um questionamento do historiador J. F. Maya Pedrosa, extraída do Revisionismo histórico brasileiro:

"É conveniente ao processo de educação a doutrinação política, a interpretação da história com finalidade de indução ideológica ou partidária?"

Entenderam? Como isso é irônico. O historiador faz essa pergunta contra a falsa história nas escolas civis! Mas não deixa de ser curioso. Entre aspas e acima está o novo gênero de pergunta que é uma arma - puro bumerangue.
http://www.diretodaredação.com/
Fonte: GEHB
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Chamada de artigos - Oralidades: Revista de História Oral (Dossiê Religiões e Religiosidades)

quarta-feira, 30 de junho de 2010


Chamada de artigos da Oralidades: Revista de História Oral (ISSN 1981-4275), que está recebendo trabalhos para o dossiê temático "Religiões e Religiosidades", que comporá nossa oitava edição.  

A Oralidades, vinculada ao Núcleo de Estudos em História Oral da USP oferece-se como espaço para a divulgação e o debate de questões relacionadas à história oral. A revista recebe artigos, entrevistas (histórias de vida), resenhas e traduções. Para o referido dossiê, lembramos aos interessados que o prazo para recebimento de contribuições é 30 de agosto de 2010.
Nosso sítio: www.oralidades.com.br

Atenciosa e cordialmente,
Equipe editorial
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ARTIGO - Retrato minucioso de um certo Brasil

segunda-feira, 28 de junho de 2010


Retrato minucioso de um certo Brasil

FERNANDO AMED
Fonte: O Estado de S.Paulo
26 de junho de 2010
No limitado circuito que compõe a corporação dos historiadores brasileiros, é um tanto conhecida a insatisfação de Capistrano de Abreu (1853-1927) quando da publicação de seus escritos. Aqueles que se debruçaram sobre sua correspondência bem sabem que o historiador cearense pretendia estabelecer uma nova edição de Capítulos de História Colonial (1907), seu trabalho mais conhecido, o que nunca veio a realizar. Uma pena para os leitores que se viram privados de poder contar com a lucidez de Capistrano em mais um de seus exercícios de domínio acerca do passado colonial brasileiro.
Este, felizmente, não foi o caso de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982). Testemunhos daqueles que privaram de sua sociabilidade sinalizam que o historiador também manifestava certo desgosto para com um dos títulos que compunha a História Geral da Civilização Brasileira, o volume Do Império à República, publicado na década de 70. Capítulos de História do Império, que ora vem ao público, foi sendo escrita ao longo dos últimos anos de vida de Sérgio Buarque e pode ser vista como uma tentativa de revisão por parte do historiador quanto ao que lhe desagradava na publicação anterior.
As semelhanças para com Capistrano de Abreu, no entanto, ainda podem ser exploradas sob outros matizes. Capítulos de História do Império apresenta o mesmo empenho em relação ao tratamento heurístico, a busca pelo conhecimento das minúcias, além do traço historicista, que dava guarida para ambos os historiadores.
Em Capítulos, o leitor pode se sentir muito próximo dos acontecimentos que enfeixaram especialmente o Segundo Império brasileiro. Sobretudo, somos estimulados pelas imagens utilizadas pelo historiador na direção da recuperação do clima que abrigava o império. Já a incomum qualidade literária é uma das características mais marcantes do livro de Sérgio Buarque de Holanda.
O uso de fontes diferenciadas permite que se perceba a busca pela empatia com o ambiente encetado pelo historiador. Nesse aspecto, sobressai o capítulo 4, em que nos aproximamos de Pedro II. Por meio da pesquisa nos diários ou nas anotações de punho feitas pelo imperador nos livros de sua biblioteca particular, além do exame dos testemunhos daqueles que o conheceram pessoalmente, o perfil de Pedro II se delineia com acuidade. É assim que passamos a agregar a informação de que ele possuía "voz aflautada, como de falsete, pernas finas demais para um corpo avantajado" e, nas ocasiões solenes, "calças bem justas, sapatos de seda branca, manto de papos de tucano, alta e pesada coroa que lhe circundava toda a cabeça, a indefectível cabeça de caju a encobrir uma pronunciada saliência na testa".
Observações como essas, aliadas às outras remetidas ao cotidiano político, ou às alcunhas e expressões de época – por que os brasileiros eram designados pelos portugueses como cabras? O que vem a ser a expressão pé-rapado? – nos permitem adentrar o passado mais remoto. Dada a ausência de preocupação com uma visão de síntese sociológica, o que percebemos é a busca pela compreensão da história passada que se segue amparada pela erudição, mais próxima daquela esposada pelos intelectuais do século 19.
Para o presente, em que os trabalhos de história costumam guardar ligações mais pragmáticas, em que os artigos se mostram mais viáveis que trabalhos de fôlego, a obra inédita de Sérgio Buarque de Holanda tem muito a oferecer. Resta saudar que não tenha tido a mesma sorte de Capistrano de Abreu e esperar que venha a encontrar um universo maior de leitores que serão gratificados pela experiência de proximidade para com as situações e alusões remetidas ao nosso passado.
FERNANDO AMED, PROFESSOR DA FACOM/FAAP E DO CURSO DE ARTES VISUAIS DA BELAS ARTES DE SÃO PAULO, É AUTOR DE AS CARTAS DE CAPISTRANO DE ABREU: SOCIABILIDADE E VIDA LITERÁRIA NA BELLE ÉPOQUE CARIOCA (ALAMEDA)



Fonte: GEHB
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Abolição da escravidão: a igualdade que não veio

sexta-feira, 25 de junho de 2010


Abolição da escravidão: a igualdade que não veio

Há mais de um século, o dia 13 de maio marca a data da assinatura da lei que emancipou os escravos. A concessão da liberdade, porém, foi acompanhada de medidas que negaram a cidadania plena aos negros

Flávio Gomes e Carlos Eduardo Moreira de Araújo
No início de 1929, o periódico carioca O Jornal apresentava em suas páginas uma "preciosidade suburbana" de 114 anos: "Um preto velho, curvado sobre um cacete nodoso, typo impressionante, que raramente se vê em nossa capital". O homem havia procurado aquela redação no intuito de pedir ajuda para comprar uma passagem para a Barra do Piraí, onde iria visitar seu neto, mas, diante do olhar de espanto dos jornalistas, decidiu sentar para conversar e contar suas histórias do tempo em que era escravo: "Eu nasci em São João del Rey, quando ainda estava no Brasil o sr. dom João, pai do primeiro imperador. Era molecote e pertencia ao sr. capitão Manoel Lopes de Siqueira". Teria sido vendido para o coronel Ignácio Pereira Nunes, dono da fazenda da Cachoeira, em Paraíba do Sul. Ali labutava quando estourou a Revolução Liberal de 1842 (ver glossário). Trabalhava tanto na lavoura como nas tropas que cruzavam o vale do Paraíba despejando café no porto do Rio de Janeiro.
O ex-escravo chamava-se Hipólito Xavier Ribeiro e era morador do morro da Cachoeirinha, na serra dos Pretos Forros (localizada entre os atuais bairros de Lins de Vasconcelos e Cabuçu, na zona norte do Rio de Janeiro). Ao longo de sua vida testemunhou importantes acontecimentos da história do Brasil, entre os quais a Guerra do Paraguai, da qual participou: "Quando o imperador mandou chamar os moços brancos para servir na tropa de linha, nunca vi tanto rancho em biboca da serra, tanto rapaz fino barbudo que nem bicho escondido no mato... O recrutamento esquentou a cada fazendeiro. Para segurar o filho, agarrando a saia da mamãe, entregava os escravos. Entregava chorando porque um negro naquele tempo dava dinheiro. Eu fui num corpo de voluntários quase no fim da guerra, mas ainda entrei em combate em Mato Grosso".
Terminado o conflito, Hipólito presenciaria outro fato marcante de nossa história: a abolição da escravidão, com a assinatura da Lei Áurea no dia 13 de maio de 1888. Ele ainda se lembrava bem dos festejos – "um batuque barulhento, sapateado de pé no chão, um cateretê daqueles, correu de dia e de noite" – mas a recapitulação do passado foi interrompida pela dura realidade do presente. Quando já havia reunido uma platéia na redação que ouvia atentamente as suas histórias, o antigo escravo decretou:
"Se eu fosse contar tudo o que sei... não acabava hoje". Queria mesmo era ajuda para comprar a passagem, pois "o tempo de hoje está pior do que o tempo do imposto do vintém (ver glossário)" e "cadê dinheiro?", e "a pé não chego lá, de trem não posso ir". E foi-se embora. Um dos jornalistas que ouviu o relato descreveu o velho negro em sua crônica: "Não obstante a sua idade avançada, apresenta aspecto sadio. É um preto alto, espadaúdo, ainda com esforço consegue se empertigar com entusiasmo. Fala com pausa, como a inquirir o pensamento".
O relato de Hipólito Xavier Ribeiro, registrado mais de 40 anos após a assinatura da Lei Áurea, é um símbolo da memória construída no Brasil em torno da Abolição. Para as elites, a escravidão deveria aparecer como resquício de um passado a ser derrotado, distante, velho e quase nunca alcançado pela memória. Um passado, se não exótico, quase surreal, como o próprio negro Hipólito.
Por que essa tentativa de apagar o passado? Por um lado era preciso fazer vista grossa às promessas não cumpridas de indenização pelos escravos libertos feitas aos fazendeiros; por outro, era necessário colocar panos quentes nas expectativas de acesso à terra e autonomia nutridas pelos libertos e pela população negra em geral nas cidades e no interior. Numa carta enviada a familiares em Valença, em abril de 1889, uma tal Pequetita Barcelos já se referia ao 13 de maio como o "malfadado dia", afirmando que os libertos preparavam "balas para os republicanos" e que só pensavam em "política e raça". O contexto era o temor da Guarda Negra, da propaganda republicana e de uma suposta retaliação política. Enquanto a população negra adulta podia ser apelidada como os "libertos do13 de maio", fazendeiros insatisfeitos eram chamados de "republicanos do 14 de maio", ou seja, aqueles que aderiram à campanha republicana e se tornaram críticos ferrenhos da monarquia justamente após a Abolição imediata e sem indenização.
Hoje sabemos que o fim da escravidão em diversas partes das Américas foi acompanhado com interesse mútuo e apreensão em vários países do mundo. Pela documentação diplomática é possível avaliar as expectativas de agentes consulares em Paris, Londres, Nova York, Caracas, Havana, Liverpool, Baltimore, Washington, Buenos Aires, Serra Leoa, Lisboa e Madri. Orientado pelas autoridades do Império, os agentes brasileiros consumiam e acompanhavam todos os debates e todas as publicações. Freqüentemente eram enviadas cópias de leis sobre a melhoria do tratamento dos escravos no Caribe, Cuba e EUA, assim como recortes de jornais e avaliações sobre o que acontecia no estrangeiro. Olhar a situação do vizinho era fundamental.
Memória seletiva
O esforço para esquecer um passado incômodo foi acompanhado pela construção de uma memória seletiva do processo de emancipação, que apresentava a Lei Áurea como uma dádiva concedida pela romântica figura da princesa Isabel, amparada pela ação apenas dos abolicionistas brancos e dos parlamentares da época. Essa imagem idealizada do 13 de maio produziu uma série de silêncios sobre as batalhas pela Abolição, marcada pela edição de jornais que reivindicavam o fim da escravidão, fugas coletivas, participação da classe trabalhadora organizada em associações, meetings abolicionistas, refregas nas ruas etc. Tentava-se, assim, desmobilizar os cenários, desqualificar os personagens, enfraquecer a força política e os desdobramentos da Abolição, remetendo a escravidão e os ex-escravos para um passado distante.
Foi assim que o 13 de maio entrou para o nosso calendário cívico. Em 1898, a comemoração dos primeiros dez anos da Abolição já tinha o caráter de feriado nacional, com atos cívicos e religiosos e com repartições públicas sem expediente. Em 1908, a data seria comemorada com salvas de tiros de navios de guerra e fortalezas militares foram especialmente embandeiradas. Aconteceu até um quase carnaval no Rio de Janeiro, organizado pelo Clube dos Fenianos. Em 1938, quando foram comemorados os 50 anos da Abolição, o presidente Getúlio Vargas, em pleno Estado Novo, oficializou os festejos em todo o território nacional.
A comemoração da assinatura da Lei Áurea, porém, não ficou restrita às missas, manifestações públicas, marchas escolares, execução de hinos, bandas musicais e paradas militares. Os jornais do final do século XIX mostram que, após os primeiros aniversários, as celebrações oficiais passaram a ser acompanhadas por protestos populares, homenagens póstumas a abolicionistas, críticas às diretrizes republicanas e reivindicações da população negra.
O final do século XIX e o início do XX foram marcados por uma batalha pela memória das lutas populares abolicionistas e pelas demandas de integração e cidadania.
Em várias regiões do país surgiram associações, entidades e clubes formados por libertos e pela população negra em geral, pertencentes tanto aos setores literários quanto aos meios operários ou recreativos. O principal apelo organizativo era reunir-se para tratar de assuntos do interesse dos "homens de cor" ou das "classes de cor". Nessa época, surgiu um vocabulário político próprio dos negros, por meio do qual avaliavam sua inserção na sociedade, suas demandas, seus comportamentos, suas estratégias, suas formas de atuação e suas denúncias e protestos contra a ordem social vigente.
Os ex-escravos e libertos reagiam, assim, à inexistência de políticas públicas no pós-1888 para incorporar milhares de pessoas a uma sociedade até então de cidadania restrita por meio do acesso à terra, ao trabalho e à educação. Pelo contrário: o silêncio sobre a integração dos ex-escravos e os limites da sua cidadania, misturado à truculência contra a população pobre urbana, sugere mesmo a institucionalização de um modelo – nem sempre explícito legalmente, mas vigente em práticas e políticas públicas adotadas – de intolerância racial que seria adotado no século XX pelas elites e pelo poder público do país "civilizado".
Vigiar e punir
Essa atitude se reflete na legislação punitiva e na constituição do sistema prisional para escravos e africanos no Brasil do século XIX e sua redefinição no período pós-Abolição. Alguns aspectos da legislação penal no Império, como o Código Criminal de 1830 e o Código de Processo Criminal de 1832, já tratavam os negros, escravos ou libertos de modo diferenciado em relação ao resto da sociedade. O castigo corporal se tornou sinônimo de punição para escravos e para a população negra em geral. Escravos e libertos atravessaram todo o século XIX estigmatizados como potenciais criminosos, com as prisões do Império lotadas deles. A cidade do Rio de Janeiro possuía uma prisão destinada exclusivamente à aplicação de penas impostas pelas autoridades judiciárias ou pelos senhores aos escravos, o Calabouço, que funcionou a pleno vapor até o fim do século XIX.
Uma análise dos processos criminais no pós-1888 com réus homens e mulheres aponta para o fato de que mesmo com o fim oficial da escravidão, a cor continuou sendo uma marca indelével carregada por milhares de homens e mulheres, fossem "libertos do 13 de maio" ou não. A grande migração de famílias negras em direção aos centros urbanos no alvorecer do século XX reforçou a associação da criminalidade à raça e à origem social. Numa guinada ideológica, crimes diversos eram atribuídos a uma suposta natureza da população negra e à sua herança da escravidão, ou seja, fruto de cidadãos incompletos (em termos raciais e sociais para os cientistas da época) numa nova ordem burguesa, capitalista e urbana.
Esses mesmos que viam os negros como supostamente inclinados ao crime, no entanto, silenciavam sobre as péssimas condições de vida nas cidades, marcada pelos problemas de saneamento e epidemias, pela falta de escolas e pelas políticas públicas discriminatórias de uma elite política que desenhava uma nação que deveria apagar seu passado escravista e a memória dos descendentes do cativeiro. Eliminava-se o escravo, mas inventava-se o negro/preto como uma marca social negativa. Libertava-se o trabalhador e instituía-se legalmente a idéia de "vadiagem" para controlá-lo.
Essa visão estereotipada do pós-Abolição no Brasil, no entanto, vem sendo amplamente questionada por parte da historiografia mais atual, fruto de pesquisas inéditas com testamentos, processos-crimes, inventários, literatura, correspondência de autoridades e políticos, recenseamentos e mesmo depoimentos de filhos e netos de ex-escravos. Esses novos trabalhos vêm pensando o período pós-emancipação também do ponto de vista das expectativas dos libertos e de seus descendentes, analisando seu legado e as experiências urbanas e rurais multifacetadas em várias partes do país.
Um desafio mais recente tem sido conectar as experiências da escravidão e do pós-emancipação à história do trabalho e à organização dos trabalhadores. Até o momento, na história do trabalho e da classe operária no Brasil foi incluída somente a experiência dos imigrantes europeus no pós-1888. Imigrantes estrangeiros chegaram muito antes de a escravidão ser abolida e foram trabalhar nas mesmas áreas que os trabalhadores escravos. Há vários exemplos de fazendeiros com propriedades que utilizavam em algumas fazendas uma maioria de trabalhadores imigrantes europeus e em outras um maior número de trabalhadores negros escravizados. Na pós-emancipação, trabalhadores negros (muitos ex-escravos ou seus filhos) e imigrantes europeus passaram a trabalhar lado a lado nas fábricas, não sem tensões étnicas.
É assim que a historiografia recente tem tentado contribuir para uma avaliação crítica do que de fato significou a Abolição e as primeiras décadas do pós-emancipação. Uma coisa, no entanto, é certa: o legado da opressão e do racismo, não só no Brasil como em toda a América, foi um dos aspectos mais importantes da trágica herança da escravidão.
GLOSSÁRIO
REVOLUÇÃO LIBERAL DE 1842: Movimento liderado pelas elites paulista e mineira que se opunha a medidas centralizadoras adotadas pelo governo imperial, na época dominado por políticos conservadores.
IMPOSTO DO VINTÉM: Taxa instituída pelo governo imperial em 1880 sobre a passagem de bonde, que previa a cobrança de 1 vintém sobre o preço original.
GUARDA NEGRA: milícia formada por ex-escravos para defender a monarquia após a assinatura da Lei Áurea.
Flávio Gomes e Carlos Eduardo Moreira de Araújo são historiadores. FLÁVIO GOMES é professor do Departamento de História da UFRJ. Organizou o volume Quase-cidadão – História e antropologia do pós-emancipação no Brasil (Fundação Getúlio Vargas, 2007) e escreveu A hidra e os pântanos – Mocambos e quilombos no Brasil escravista/i (Editora da Umesp, 2005), entre outros livros. CARLOS EDUARDO MOREIRA DE ARAÚJO é doutorando em história social pela Unicamp e um dos autores de Cidades negras – Africanos e crioulos no Brasil escravista (Alameda, 2006).


Fonte: História Viva - http://www2.uol.com.br/historiaviva/
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Guerra perdida - Revista de História da Biblioteca Nacional

quinta-feira, 25 de junho de 2009


Guerra perdida

Composta por Fernando Henrique Cardoso e outros líderes da América Latina, a Comissão sobre Drogas e Democracia apresentou suas propostas em congresso internacional.
Adriano Belisário na Revista de História da Biblioteca Nacional


Apesar de acompanhar a humanidade desde tempos remotos, o comércio e consumo de tóxicos ainda suscitam polêmicas. Longe de serem encarados com naturalidade, os hábitos são combatidos em diversos países com uma política que ficou conhecida pela alcunha de "guerra contra as drogas". Em resposta a este modelo, outras alternativas tratam o assunto como um problema de saúde pública e não como caso de polícia. É nesta segunda abordagem que se enquadram as propostas da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia.

Os resultados foram apresentados no 28° Congresso Internacional da Latin American Studies Association (LASA), realizado em junho no Rio de Janeiro. A sessão da Comissão contou com a mediação de Eric Hershberg, da Simon Fraser University, além da participação do pesquisador Bruce Bagley, da Universidade de Miami, e de Diego Garcia Sayán, juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos que compareceu ao evento cobrindo a ausência do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, outro membro da Comissão.

O ponto de partida dos debates foi a constatação do fracasso da guerra contra as drogas, liderada pelos Estados Unidos e aplicada no mundo todo durante o século XX. Segundo os estudiosos, o caso da América Latina apresenta características bem particulares desta derrota. A mistura da repressão policial com a pobreza teve resultados literalmente explosivos. “Parecia que os Estados Unidos estavam dispostos a lutar contra as drogas até o último colombiano, dispostos a sacrificar um país inteiro”, criticou Bruce. Segundo seus dados, há mais de 350 organizações ligadas ao tráfico de drogas na Colômbia.

Segundo Garcia, os números mostram que tanto a produção quanto o consumo não diminuíram nas últimas décadas na região. Ao contrário, aumentaram. “Há uma relação muito forte entre armas de fogo e tráfico de drogas. Na Guatemala, por exemplo, há regiões totalmente controladas pelo poder paralelo, sequer o Exército tem acesso”, disse Diego.

De acordo com a Comissão, o direcionamento de recursos públicos unicamente para o combate à influência dos traficantes não é a estratégia mais adequada. Diego Garcia apontou uma distorção nas políticas governamentais que seguem esta linha, pois mantém altos os níveis de impunidade ao comércio internacional. “Não existe solução ideal. Precisamos buscar substituir os paradigmas da segurança para a saúde e fazer campanhas que elucidem melhor os efeitos das drogas”, propôs.

O reconhecimento da necessidade de mudanças graduais embasa a proposta de descriminalização da maconha, defendida abertamente por Fernando Henrique Cardoso e toda Comissão. Por ser considerada uma droga de baixo risco, a alteração do estatuto da erva é vista como o primeiro passo de uma longa caminhada. Um passo tímido, na opinião de Bagley.

Críticas às propostas

Bruce reconheceu a necessidade de trabalhar com a redução de danos no lugar da campanha que busca eliminar o uso de drogas por completo. Porém, segundo ele, apenas a descriminalização do uso de maconha não irá resolver o problema dos países andinos ou da Colômbia, tampouco irá acabar com o tráfico. Bagley propõe que se pense também em propostas ainda mais polêmicas, como a revisão da ressalva ao comércio da maconha e a descriminalização da cocaína.

“Eliminar o crime organizado é difícil porque você pode eliminar um, mas rapidamente outros aparecerem. E o informe da Comissão mantém a possibilidade do tráfico e cultivo serem ilegais. Para uma droga ser consumida na Holanda ou em Portugal, é preciso um cultivo e um comércio anterior. Deste modo, iremos apenas encarcerar menos europeus”, sentenciou Bagley.

Bruce lembrou ainda do Harrison Act como o último debate sério sobre drogas nos Estados Unidos. Promulgada em 1914, esta lei pode ser considerada como o ponto de partida da guerra contra os tóxicos. O esforço nesta cruzada conseguiu até mesmo a proibição ao álcool quatro anos depois, mas, ao contrário das demais drogas, esta foi novamente liberada anos depois.

A revisão daquela legislação inspira a Comissão, que pretende uma mudança nos rumos das políticas públicas sobre drogas na América Latina. Desta vez, porém, as decisões não devem cair do norte. “A América Latina não pode esperar os Estados Unidos nesse assunto”, incitou Bagley ao final de seu discurso.
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Planalto libera documentos históricos ao Arquivo Nacional

segunda-feira, 9 de março de 2009


Planalto libera documentos históricos ao Arquivo Nacional
BRASÍLIA - O Palácio do Planalto entregou ontem ao Arquivo Público
Nacional um lote de nove livros com atas manuscritas e datilografadas
de reuniões do extinto Conselho de Segurança Nacional (CSN), que
abrangem um período de mais de 50 anos. O acervo estará acessível ao
público em duas semanas nas sedes do arquivo no Rio de Janeiro e em
Brasília. O CSN, criado formalmente pela Constituição de 1937, era um
órgão consultivo do presidente da República que se tornou ainda mais
temido durante o regime militar (1964-1985), por discutir cassação de
mandatos e diretrizes da guerra contra adversários políticos do
governo.
São três mil páginas com histórias de novembro de 1934 a meados de
1988, como as reuniões que decidiram a entrada do Brasil na Segunda
Guerra, as relações conturbadas com a Argentina durante as ditaduras
Vargas e Perón (Argentina) e a fase do regime militar instalado com o
golpe contra Goulart em 1964.
Antes de entregar os documentos, uma comissão do governo formada por
militares e diplomatas decidiu que 416 linhas deverão ter tarja preta.
"Não é uma censura política, mas uma censura de relações
internacionais", disse o general Jorge Armando Félix, do Gabinete de
Segurança Institucional da Presidência.
Em uma longa entrevista, Félix disse que expressões "ofensivas" e
"jocosas" contra instituições, países e pessoas não têm interesse
histórico, por isso deverão continuar sigilosas. A preocupação do
governo é não criar atritos com os vizinhos, especialmente os
argentinos. "Os povos de maneira geral são emotivos", disse o
general, em tom diplomático. Ele deixou claro que muitos relatos
contidos nas atas podem causar constrangimentos. "Seria uma grosseria
deixar essas coisas transparecerem."
O general abriu a cerimônia de entrega dos documentos com um discurso
emotivo. Ele disse que estava entregando para o Arquivo Público
Nacional "amigos antigos" e criticou que, no passado, o País não
valorizava sua história, citando o roubo da Taça Jules Rimet, símbolo
das três primeiras Copas vencidas pelo Brasil, e a destruição de
documentos da época da escravidão.
Logo depois, a emoção deu lugar à irritação do general. Félix se
irritou a uma pergunta se não iria criticar também a destruição de
documentos na época do regime militar. "Não misturem as coisas, não é
hora disso", afirmou. As atas entregues por ele ao Arquivo Público
Nacional, porém, tratam também do período do regime militar. Está lá
por exemplo a ata da reunião que aprovou o Ato Institucional nº 5, o
AI-5, que cassou mandatos, suprimiu direitos políticos e endureceu a
censura. O Conselho Nacional de Segurança foi substituído nos anos
1980 pelo Conselho Nacional de Defesa.

fonte:
C L A R I N D O
(Paulo Clarindo)
(21) 9765-6038 / 2224-6184 / 2242-6619 / 3769-4221
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Documentos raros resgatados

domingo, 14 de dezembro de 2008


Documentos raros resgatados
Após mais de 50 anos esquecido, o Arquivo Público e Histórico de Cristina,
no Sul de Minas, está sendo resgatado junto com a história de outros dez
municípios pertencentes à comarca daquela cidade - Carmo de Minas, Dom Viçoso, Virgínia, Olímpio Noronha, Conceição das Pedras, Natércia, Heliodora Pedralva, São José do Alegre e Maria da Fé.
O acervo permaneceu guardado, e praticamente esquecido, no porão da residência de Francisco Gomes Nogueira Filho – então tabelião do cartório de Cristina – por mais de cinco décadas, quando o antigo prédio do fórum foi destruído para construção de um novo. O material sofreu danos decorrentes da umidade e do mofo, além do manuseio e acondicionamento indevidos, o que provocou algumas perdas.
Quando tomou conhecimento do fato, o juiz de direito da Comarca, Luiz Fernando Rennó Matos, retirou a documentação do local e a transferiu para uma pequena casa alugada, onde ficou por mais de um ano. Por ser uma das cidades mais antigas de Minas, Cristina concentrou em sua comarca decisões importantes envolvendo todas as demandas processuais das áreas civis e criminais da região, constituindo seu acervo um importante patrimônio histórico. Por causa desta importância algumas pessoas da comunidade e pesquisadores de outras regiões, interessados em História, Direito e
Genealogia, passaram a solicitar que os documentos fossem disponibilizados
para pesquisa.
O grupo procurou o Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio Cultural que propôs a criação de uma Organização Não-Governamental (ONG) para cuidar de toda a documentação e, há quatro anos, com recursos financeiros do Fundo Estadual de Cultura, foi fundado o Centro de Documentação e Memória de Cristina “Luiz Barcellos de Toledo”. Hodgson Edmundo Rodrigues Castro, coordenador do projeto, informa que um historiador calculou 150 metros lineares de documentos, porém ao abrir as caixas percebeu-se que havia o triplo. “No acervo, estão, por exemplo, processos por devolução de escravos que não correspondiam às qualidades descriminadas por seus ex-donos, levantamentos do número de escravos em cada município pertencente à Comarca
de Cristina, e demandas diversas por divisas de terras”, revela Hodgson.
Atualmente o Arquivo Público e Histórico do município de Cristina está localizado em três salas, na Câmara Municipal, onde pode ser analisado por pesquisadores e estudantes. "A característica principal deste arquivo é a unidade pela qual os documentos se apresentam, ou seja, é um conjunto integrado de fontes de memória histórica, que possibilita o entendimento da transição do passado colonial para a nação independente que somos”, conta Hodgson.
Ubá também abre Arquivo Público Como Cristina, o município de Ubá, na Zona da Mata, também obteve verba do Fundo Estadual de Cultura para implantação do Arquivo Histórico Permanente do Município. O projeto foi elaborado pelo então secretário municipal de Administração e membro do Conselho de Patrimônio Cultural de Ubá, Evandro de Castro Doriguetto.
Em funcionamento desde 2007, o Arquivo é composto por documentos produzidos pela administração pública – Câmara e Prefeitura – durante os séculos XIX e XX. No acervo também podem ser encontrados 71 posteres em preto e branco produzidos em meados do século XX pelo arquiteto Fernando Afonso Carneiro Peixoto com o tema: “Ubá: Retrato de uma cidade” – um registro histórico da arquitetura da cidade, assim como dos eventos como casamentos, enterros, festas, bailes, formaturas, entre outros.
Segundo Beth Barros, da Divisão de Cultura, além da população de Ubá, a implantação do Arquivo Histórico é importante para os diversos municípios da região, principalmente aqueles que faziam parte do território ubaense, cuja história está registrada em boa parte do acervo que agora se encontra recuperado e preservado.
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Artigo - Ronaldo Vainfas - Folha de S.Paulo (14/12/2008)


*Horas de desespero*

*Diminuição das aulas de história em benefício das de sociologia em SP é um
erro grave, que irá prejudicar ainda mais os alunos das escolas públicas***
-

RONALDO VAINFAS

ESPECIAL PARA A *FOLHA - 14/12/2008*

Mais uma vez a história sai prejudicada no ensino médio, e não digo isso com
o espírito de autocomiseração tão corriqueiro entre os professores de
história.
Mas esta decisão do governo do Estado de São Paulo -de reduzir a carga
horária letiva de história para abrigar a disciplina de sociologia e ampliar
a de filosofia- irá prejudicar os estudantes sem compensação à altura.
A obrigatoriedade da filosofia pode ser considerada positiva, pois dá um
toque de humanismo e um estímulo à reflexão ética muito salutares. Sobretudo
no mundo atual, onde o individualismo narcísico e o egoísmo possessivo
parecem ter se consagrado como valores universais.
Mas ampliar a carga de filosofia e introduzir sociologia já é discutível.
Trata-se de disciplina muito específica no campo das ciências sociais,
voltada, antes de tudo, para a discussão de modelos abstratos para o estudo
das sociedades.
Ficará o aluno obrigado, precocemente, a debruçar-se sobre o pensamento de
Weber, Durkheim e, decerto, o velho Karl Marx. Sabe-se lá como isso será
ensinado pelos professores ou recebido pelos alunos.
E, se entra a sociologia, por que não a antropologia ou a ciência política?
Qual é o critério de escolha da sociologia como representante das ciências
sociais no ensino médio? De todo modo, a inclusão da sociologia ou de
qualquer das outras chamadas ciências sociais é desnecessária nesta altura
da formação escolar.

*Fusão*
Tudo se agrava com a diminuição da carga de história, que já incorporou,
recentemente, a obrigatoriedade de disciplinas sobre histórias africana e
indígena. A primeira em 2003, pela lei nº 10.639, e, a segunda, em 2008,
pela lei nº 11.645.
Nesta última, a fórmula utilizada para denominar a disciplina é "história da
cultura afro-brasileira e indígena". Nada contra a inclusão desses novos
conteúdos que, sem dúvida, ajustam o ensino da história no Brasil às nossas
raízes culturais múltiplas, embora nada disso seja realmente novo.
Muito pelo contrário, pois já Karl von Martius, em meados do século 19,
dizia que a chave para compreender a história do Brasil residia no estudo da
fusão das três raças, a branca, a indígena e a negra. Deixando de lado o
linguajar "raciológico", hoje tão valorizado nas políticas afirmativas do
governo, a idéia de Von Martius era boa.
Tão boa que ninguém a seguiu naquele tempo em que a escravidão brasileira
estava no apogeu. Foi somente Gilberto Freyre quem viria a assumir esse
projeto em seu "Casa-Grande e Senzala", de 1933. E ainda foi acusado de
racista...
Seja como for, ensinar história não é o mesmo que ensinar somente história
do Brasil ou de tudo aquilo que guarda relação direta com a nossa história.
Esse "brasil-centrismo" (me perdoem pelo neologismo cacófono) é, por razões
óbvias, um equívoco que afetou muito o ensino da história.
Os estudos da Antigüidade e da Idade Média, por exemplo, saíram dos
currículos do secundário em reformas anteriores, e seus conteúdos acabaram
excluídos dos exames vestibulares. O que será cortado da história com esses
novos ajustes?
O grave risco é o de se formular um currículo de história centrado, de um
lado, numa história do Brasil ideologizada e, de outro, numa história geral
cada vez mais presentista.
A julgar pelos cortes cronológicos anteriores, a próxima vítima deve ser a
história moderna e, assim, o estudo da história geral corre o risco de
começar pela Revolução Francesa!

*Triunfo do clichê*
Que história será essa, que, de reforma em reforma, vai arqueologizando o
passado?
É o triunfo do clichê de que a história serve para compreender o presente,
quando o melhor dela, História, é conhecer o próprio, as diferenças de uma
mesma sociedade no tempo ou entre civilizações distintas.
E, agora, o ensino médio de São Paulo ainda vai amputar mais a história para
abrigar a sociologia. Decisão temerária e repleta de conseqüências negativas
para a formação dos alunos. Dos alunos do "ensino público", vale sublinhar.
Porque os colégios particulares não entrarão nessa onda de cortes, mantendo
sua carga de 500 horas ou mais, enquanto as escolas públicas paulistas terão
de contentar-se, segundo cálculos recentes, com cerca de 200 horas.
Moral da história: nos vestibulares futuros, os egressos das escolas
públicas de São Paulo sairão em grande desvantagem nas provas de história,
sobretudo os que optarem por carreiras humanísticas, onde a prova de
história é decisiva.
Assim, terão mais dificuldade, como sempre, de ingressar em universidades
públicas. O remédio das cotas, em si mesmo duvidoso, torna-se quase uma
piada de mau gosto num contexto como esse.
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*RONALDO VAINFAS* é professor titular do departamento de história da
Universidade Federal Fluminense (UFF).
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Luiz Felipe de Alencastro e os 200 anos da Corte no Brasil


*A terceira margem do Rio*

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*Estudos sobre a vinda da família real ao Brasil ignoram que país estava inserido no contexto mais amplo do Atlântico Sul***------------------------------

*LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO*
COLUNISTA DA *FOLHA*

No termo do ano do bicentenário, talvez ainda haja algo para ser dito sobre
a chegada da corte.
Eventos variados apresentaram as mudanças introduzidas em 1808.
Apontou-se o desenvolvimento comercial, a modernização social e institucional, o transplante da burocracia européia que forjou o aparelho estatal da nação, a não-fragmentação da América portuguesa e a singularidade monárquica brasileira no contexto americano.
Some-se a isso certa nostalgia da época em que o Rio de Janeiro era a capital política, econômica e cultural do país.
Com exceção deste último aspecto, os temas não foram muito distintos dos que haviam sido destacados cem anos atrás.
Como há um século, a comemoração da vinda da corte serviu para apregoar a preeminência do Brasil na história da expansão européia e a excepcionalidade
do destino brasileiro.
Pouco se falou a respeito da ofensiva inglesa no Atlântico Sul, ilustrada pelos ataques de 1806 e 1807 a Buenos Aires, cujo comércio seria em seguida aberto à Inglaterra.
Quase nada foi notado sobre o arrocho de Londres para que a corte viesse para o Brasil comboiada -subjugada pelos canhões da Royal Navy.
No entanto -respondendo à chancelaria britânica, que insistia, ainda em 1838, na generosidade da ajuda naval inglesa em 1808-, Sá da Bandeira, primeiro-ministro português, argumentou que a corte podia muito bem ter se estabelecido na ilha da Madeira, mais próxima de Lisboa e inacessível à Marinha de Guerra francesa (destruída em 1805 na batalha de Trafalgar).

*Pressão inglesa*
Para ele, a vinda da corte para o Rio de Janeiro fora imposta pelos ingleses, sobretudo interessados em ter livre acesso ao mercado da América portuguesa. Nessa perspectiva, o fator decisivo do translado da corte é a pressão inglesa para forçar a abertura do comércio do Brasil.
Assim, o plano de mudança da sede do reino, cogitado desde sempre por uma elite portuguesa ansiosa por vir morar em Pindorama -eixo central da historiografia e do comemoracionismo-, se torna aleatório.
Enviesada por uma interpretação territorial da história do Brasil que desconsidera a unidade do Atlântico Sul, boa parte das análises não atinou para o outro evento marcante de 1808: o engolfamento brasileiro nos portos africanos abandonados pelos negreiros da Inglaterra e dos EUA.
De fato, concretizou-se nesse mesmo ano a proibição do tráfico de africanos
ordenada aos comerciantes dos dois países por seus respectivos governos.
Atenta à mudança, a Mesa de Inspeção -órgão regulador do comércio do Rio-anunciou, em agosto de 1808, as grandes oportunidades abertas ao Brasil, "pela falta de concorrentes estrangeiros na costa [da África], sendo a todos vedado este comércio [de escravos]".
Na seqüência, as trocas diretas com a Inglaterra estimulam as exportações
brasileiras para a Europa, avolumando a importação de africanos.
Campeão absoluto do comércio negreiro, já considerado pirataria no século 19, o Brasil captou 1,5 milhão de africanos entre 1808 e 1850. Desses, 760 mil foram ilegalmente introduzidos no país, sobretudo entre 1831 e 1850.
Conforme a legislação brasileira de 1831, todos esses indivíduos eram considerados livres ao pisarem nas praias do império. Sua redução ao cativeiro constituía crime de seqüestro.
Porém a esmagadora maioria deles -e de seus filhos e netos- foi mantida na escravidão com a tolerância das autoridades e o conluio da sociedade.

*Livres e escravizados*
Desse modo, as duas últimas gerações de escravos simplesmente não eram
escravos. Trata-se de indivíduos plenamente livres e escravizados ao arrepio
da lei.
Nesse contexto, a transferência da corte ofereceu duas condições importantes
para a sobrevivência do sistema negreiro. Um governo português -e depois brasileiro- obstinado na continuidade do escravismo e um aparato diplomático competente, apto a neutralizar as ofensivas diplomática e naval inglesa, protelando o tráfico de africanos até 1850.
A visão irênica da chegada da corte propala a ocidentalização do Brasil pela
dinastia dos Bragança que reinava nas duas margens do Atlântico.
Mas houve também uma terceira margem no rio-oceano, formando a cadeia de trocas que conectou a barbárie ao progresso econômico: quanto mais cresceu a economia brasileira, mais gente foi arrancada da África e escravizada no Brasil.
O poeta alemão Heinrich Heine escrevia em 1833: "Cada época é uma esfinge que mergulha no abismo logo que o seu problema é decifrado".
Terá o Brasil decifrado as conseqüências do problema gerado em 1808?
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*LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO* é historiador e professor na Universidade de Paris 4. É autor de "O Trato dos Viventes" (Cia. das Letras) e escreve regularmente na seção "Autores", do *Mais!*.
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Oito em cada dez brasileiros nunca ouviram falar do AI-5


Oito em cada dez brasileiros nunca ouviram falar do AI-5
*MAURICIO PULS* da *Folha de S.Paulo*
*NATÁLIA PAIVA* colaboração para a *Folha de S.Paulo*

Editado há 40 anos pelo general Costa e Silva, o AI-5, o principal símbolo
da ditadura militar, é totalmente ignorado por 82% dos brasileiros a partir
dos 16 anos. E, dos 18% que ouviram falar algo sobre ele, apenas um terço
(32%) respondeu corretamente que a sigla se referia ao Ato Institucional nº 5.

13.dez.1968/Iconographia O então ministro da Justiça Luís Antonio Gama e Silva anuncia o ato AI-5 na Agência Nacional ao lado do locutor Alberto Cury

Editado em 13 de dezembro de 1968 pelo então presidente, o general Costa e
Silva, o AI-5 autorizava o Executivo a fechar o Congresso, cassar mandatos,
demitir e aposentar funcionários de todos os poderes. O governo podia
legislar sobre tudo, e suas decisões não podiam ser contestadas
judicialmente. Em dez anos, o AI-5 serviu de base para a cassação de mais de
cem congressistas. A censura atingiu cerca de 500 filmes, 450 peças, 200
livros e 500 canções.

Passados quase 30 anos de sua extinção, a lembrança do AI-5 vem se
desvanecendo. Como observa o cientista político Marcus Figueiredo, do
Iuperj, isso resulta do fato de que boa parte da população nasceu após 1968:
"O fato tem 40 anos e não faz parte do calendário das datas nacionais". Mas
mesmo no estrato de pessoas com 60 anos ou mais (indivíduos que tinham ao
menos 20 anos quando o AI-5 foi editado), só 26% dizem ter ouvido falar
dele.

O conhecimento sobre o AI-5 cresce à medida que avança a escolaridade
formal. Só 8% das pessoas com ensino fundamental ouviram falar do AI-5. A
taxa sobe para 53% entre quem tem nível superior, mas só 12% desse grupo se
diz bem informado.

Para o sociólogo Leôncio Martins Rodrigues, professor aposentado da USP e da
Unicamp, "a variável decisiva é a escolaridade": "É natural que o
desconhecimento exista. A população comum é muito desinformada sobre
questões políticas. O pessoal mal lê jornal. Isso não é só no Brasil. Foi
feita uma pesquisa com jovens da Alemanha, e a grande maioria nunca tinha
ouvido falar de Hitler".

Na opinião do historiador Marco Antônio Villa, da UFSCar, a pesquisa não
revela "nenhuma surpresa": "Nós somos um país sem memória e despolitizado.
Se a política fizesse parte do cotidiano, isso não aconteceria. É um duplo
problema. Isso permite que quem colaborou com a ditadura possa se travestir
de democrata".

Para o historiador Carlos Guilherme Mota, da USP, a pesquisa do Datafolha é
previsível e resulta de um ensino ruim, da falta de financiamento às
universidades e da falta de interesse num projeto nacional calcado no
conhecimento histórico: "Vivemos num país em que as elites não têm
preocupação em incentivar a educação e a pesquisa histórica", diz.

Mais do que um fiasco do sistema escolar, a historiadora Denise Rollemberg,
da UFF, diz tratar-se de um processo que envolve esquecimento e reconstrução
da história: "No Brasil pós-abertura política, quando a democracia passa a
ser valorizada, há uma reconstrução do passado a partir do presente. Nessa
reconstrução esquece-se o que houve para esquecer-se do aval dado".

Daniel Aarão Reis, também da UFF, concorda. Diz que que sempre que uma
sociedade muda de valores surge o desafio de compreender por que se tolerou
a situação agora deixada de lado: "É muito mais simples não falar do
assunto, esquecer".

Um sintoma de que o apoio à ditadura foi mais amplo do que aparenta
transparece na pergunta na qual o pesquisador, após explicar o que foi o
AI-5, questiona se Costa e Silva agiu bem ou mal ao editá-lo: 48% avaliam
que ele agiu mal, e 26% acham que ele agiu bem. A pesquisa foi feita de 25 a
28 de novembro com 3.486 pessoas. A margem de erro é de dois pontos.
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AI-5 influenciou regimes militares na América do Sul, dizem analistas

sábado, 13 de dezembro de 2008


AI-5 influenciou regimes militares na

América do Sul, dizem analistas

*MARCIA CARMO*
da *BBC Brasil*, em Buenos Aires

O Ato Institucional Nº 5 (AI-5), que deu poderes ilimitados ao governo
militar do presidente Artur da Costa e Silva e que completa 40 anos neste
sábado, acabou servindo de "exemplo" para os golpes militares em outros
países da América do Sul, segundo analistas.

"Com o AI-5, começou um novo modelo de ditadura militar na região que serviu
de exemplo para o golpe militar no Uruguai e no Chile, em 1973, e na
Argentina, em 1976", disse à BBC Brasil o professor de ciências políticas da
Universidade Autônoma do Chile, Ricardo Israel.

Segundo ele, aquele "novo modelo de ditadura" não queria somente "derrubar"
os comunistas, naqueles tempos de Guerra Fria, mas também implementar um
novo sistema político e econômico.

"Os militares tinham uma visão totalitária que incluía o controle da
sociedade, dos meios de comunicação, dos poderes Legislativo e Judiciário. E
tudo isso foi copiado e instalado, depois, pelos outros países da região",
destacou Israel.

Guillermo Holzmann, diretor do Departamento de Ciências Políticas e Públicas
da Universidade do Chile, concorda. "A base ideológica (dos militares) era a
doutrina de segurança nacional, que o Brasil reavaliou (a partir do AI-5)
como um processo de maior autonomia, com uma proposta que ia além de
neutralizar a ameaça comunista".

O cientista político Ricardo Israel diz ainda que o Brasil também foi
exemplo na hora de "eliminar os insurgentes", com apoio dos Estados Unidos.

"No Brasil, adotaram-se praticas militares para eliminar os opositores. O
mesmo modelo foi adotado nos outros países da região", disse. A diferença,
ressalvou, é que aquelas perseguições foram ainda mais intensas e ferozes
nos países que "copiaram" o Brasil, como Argentina e Chile. "A aplicação das
práticas militares para eliminar os opositores teve mais força nestes países
porque neles a oposição era muito maior", disse.

*"Dívida"*

Israel recordou que dos cinco países que atuaram juntos na chamada "Operação
Condor", somente Argentina e Chile fizeram "revisão" daquele período. Na sua
opinião, o Brasil tem uma "dívida pendente" com a História. "O Chile teve
uma transição parecida com a do Brasil, que incluiu a anistia. Mas o Chile
levou aquele passado para os tribunais. Brasil e Uruguai não".

No Chile, a herança do ex-presidente Augusto Pinochet, líder do golpe contra
o socialista Salvador Allende, em 1973, incluiu cadeiras cativas no Supremo
Tribunal de Justiça e no Congresso Nacional. Aquelas chamadas "amarras"
foram eliminadas no governo do ex-presidente socialista Ricardo Lagos,
abrindo caminho para os processos dos acusados de crimes durante a ditadura
(1973-1989).

"No Chile, esses processos são possíveis hoje porque é aplicada a lei de
direitos humanos internacional, segundo a qual os crimes de lesa humanidade
não prescrevem nunca e são perseguidos sempre".

Por sua vez, Holzmann afirmou que os governos militares da região atuaram de
forma sintonizada, como na "Operação Condor", porque muitos de seus
integrantes, que estavam nas áreas de segurança e inteligência, tinham se
conhecido durante cursos no Panamá e nos Estados Unidos. "Com isso, as
medidas coordenadas que adotaram, mais tarde, ocorreram porque eles tinham
os mesmos interesses e confiança mútua".

Para ele, os regimes militares de Brasil e Chile deixaram algumas marcas
daquelas gestões (industrial e econômica, por exemplo), mas em outros, como
na Argentina, aquele sistema acabou em "tremendo fracasso".

Hoje, segundo Holzmann, Brasil, Argentina, Uruguai e Chile não têm o mesmo
modelo democrático. "São democracias com diferentes níveis de
desenvolvimento. Nem todos os países da região têm hoje instituições sólidas
e eficientes, e equilíbrios macroeconômicos. Com isso, a pobreza, a
desigualdade ou a exclusão variam de um país para o outro".
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Cartas de Jango criticam "quartelada" de 64

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008


*Cartas de Jango criticam "quartelada" de 64*

*Do exílio, presidente deposto enviou correspondência de agradecimento a argentinos e ao ditador paraguaio Alfredo Stroessner

Nas mensagens, Goulart criticava a "ditadura" e também o comunismo, que "não
resolverá jamais os problemas que nos afligem"*

DA SUCURSAL DO RIO

No exílio, João Goulart manteve intensa correspondência com amigos e aliados
políticos, que lhe passavam informações sobre a conjuntura do país, sempre
com a intenção de voltar ao Brasil, principalmente nos primeiros anos após o
golpe militar de 1964.

Como se trata do arquivo do ex-presidente, naturalmente poucas são as cartas escritas por Jango que restaram. Há rascunhos de mensagens, por vezes em blocos improvisados de hotéis ou folhas de caderno.

Os primeiros registros do CPDOC são de abril de 1964, logo após a chegada ao Uruguai. Em carta que não tem sua caligrafia e foi provavelmente ditada, ele chama o golpe de "quartelada" e o governo de "ditadura". Sua provável letra, porém, aparece em retificações.

"Dirijo-me do exílio ao povo brasileiro nesta hora de angústias e sofrimentos. Deposto por um golpe de força, observo, entristecido, cair a máscara do grupo militar que assaltou o poder. Instalaram um governo ficticiamente constitucional e, desde a quartelada, nenhuma medida a favor do povo foi posta em prática", escreve. Em um dos trechos, substitui "desesperança" por "tristeza".

Ao chegar ao Uruguai, enviou cartas de agradecimento, "pelo apoio", "a todos os argentinos" e ao ditador paraguaio Alfredo Stroessner. É possível ver on-line o documento em que recebe o asilo político do governo uruguaio, de 21 de abril de 1964.

Em outro rascunho, reclama a restauração das liberdades. "Não está em jogo a minha pessoa, meu prestígio pessoal ou meu futuro político. (...) Sinto-me no dever e na responsabilidade de lutar, democraticamente, para restabelecer as liberdades suprimidas e as garantias aos humildes."

Recebia de aliados relatórios militares de inteligência, caso de documento sobre o Uruguai supostamente confeccionado pelas Forças Armadas.

A coleção contém o inquérito policial militar a que respondeu por supostos crimes contra a segurança do Estado e a ordem política e social. Seria julgado, entre outras coisas, "por tentativa de subversão da disciplina e hierarquia" e por ter usado as Forças Armadas na proteção de comícios, "onde a propaganda comunista foi clara, aberta e ostensiva".

Em cartas, entretanto, ataca o comunismo que era acusado de defender -"se o comunismo, que todos condenam, não resolverá jamais os problemas que nos afligem, não serão os fracos processos das direitas (...) que irão fornecer solução aos nossos problemas"- e critica o embaixador norte-americano, Lincoln Gordon.

Cartas de populares com pedidos e manifestações de solidariedade também foram guardadas, como a de uma mulher que lhe pede "mil cruzeiros novos" (cerca de R$ 5.900 em valores de hoje). Muitas cartas eram respondidas, segundo os pesquisadores do CPDOC.

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Fabrício Augusto Souza Gomes
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Digitalizado, acervo de Jango mostra amargor durante o exilio

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008


*Em 62, EUA pediram apoio a Jango na crise dos mísseis em Cuba*

*Carta de John Kennedy mostra que americano solicitou ajuda política e
militar ao Brasil contra a ameaça soviética

Em manuscrito de arquivo do CPDOC, João Goulart se manifesta contra ação
militar em Cuba e defende autodeterminação do país*

*RAPHAEL GOMIDE*
DA SUCURSAL DO RIO

No auge da crise dos mísseis em Cuba, em 22 de outubro de 1962, o presidente
dos Estados Unidos, John F. Kennedy, enviou carta "secreta" ao colega
brasileiro João Goulart, pressionando-o por apoio diplomático, político e
até militar contra o "desafio ousado e belicoso" [de instalar mísseis em
Cuba] da URSS a "todos os povos livres". Segundo Kennedy, os mísseis
representavam "grave (...) ameaça ao hemisfério ocidental", e os dias
seguintes determinariam "o futuro da humanidade neste planeta".

Kennedy propõe a Jango uma ação conjunta, que pode incluir a "participação
(...) em alguma ação militar", "senão a União Soviética vai passar a
violações mais e mais flagrantes contra a paz internacional e a liberdade,
até que não tenhamos mais escolha a não ser a rendição absoluta ou o
desencadear de um holocausto nuclear". "Temos de tomar uma posição agora; o
mundo inteiro está observando."

As quatro páginas da mensagem e mais 563 páginas de documentos, além de 136
fotos, integram os arquivos pessoais do presidente deposto João Goulart
(1961-64), desde domingo digitalizados e disponíveis a acesso público no
site do CPDOC/FGV *(www.cpdoc.fgv.br/comum/htm/)*.

O governo brasileiro não participou da malfadada intervenção em Cuba. Não se
sabe se esta foi a resposta oficial do brasileiro, mas os arquivos do CPDOC
contêm manuscrito em que Jango se manifesta contra a intervenção militar em
Cuba e defende a autodeterminação do país. "Nunca reconhecemos a guerra como
instrumento de resolver conflitos entre os países", escreveu.

Os papéis digitalizados são um resumo do pensamento e das angústias do
último presidente civil antes de 21 anos de regime militar. Trazem
documentos pessoais, fotos e material de sua vida pública. Retratam o
conturbado período de sua presidência, iniciada com a renúncia de Jânio
Quadros e encerrada com sua queda, após golpe que o levou ao exílio, onde
morreu, em 1976.
Há relatos sobre articulações políticas do então governador da Guanabara,
Carlos Lacerda, para derrubá-lo, em 1963, e dos militares contra sua posse
após a renúncia de Jânio, em 61. Uma carta do amigo Doutel de Andrade o
alerta que ele seria preso caso voltasse da China ao país naquele momento. A
fonte era o presidente da República provisório, Ranieri Mazzili.
Os papéis são divididos por período histórico e compreendem as várias fases
da vida do gaúcho, herdeiro político de Getúlio Vargas.

Observando virtualmente os documentos, é possível compreender a
radicalização e a tensão antes do golpe, as tratativas infrutíferas de
reverter o destino já no Uruguai, e enxergar a tristeza e o amargor dos anos
de exílio. Até sua morte, ele escrevia manuscritos endereçados "ao povo
brasileiro".

*Aberto para o mundo*

A digitalização dos documentos foi feita com o patrocínio de R$ 3 milhões do
banco Real. Segundo Suely Braga, coordenadora do setor de documentação do
CPDOC, o objetivo é preservar o acervo e abrir possibilidades de consulta
para o mundo.

O acervo de Jango foi doado em 1990 pela família de Raul Ryff, que foi
secretário de imprensa do presidente. Não existe outro arquivo privado
conhecido, diz Suely Braga, embora parentes do ex-presidente tenham se
referido a um baú, que se teria perdido.

Para a pesquisadora sênior do CPDOC Ângela de Castro Gomes, autora do livro
"Jango -As Múltiplas Faces", o acervo "contempla tanto a dimensão de homem
público quanto a pessoal" de João Goulart. "Lendo o arquivo, conseguimos
sentir como aquele personagem vivia como pessoa, seu sofrimento e seu desejo
de voltar ao Brasil de qualquer maneira", diz.

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Fabrício Augusto Souza Gomes
fabricio.gomes@gmail.com MSN: fabriciosgomes@msn.com
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Médici queria revogar AI-5, diz ex-presidente da Arena


*40 ANOS DO AI-5*

*Médici queria revogar AI-5, diz ex-presidente da Arena*

*General fez consultas, mas não encontrou nenhum apoio, diz Rondon Pacheco

Costa e Silva também queria extinguir ato outorgando uma nova Constituição
em 1969, mas adoeceu e foi afastado da Presidência*
Fernanda Odilla/Folha Imagem
*O ex-ministro e ex-governador Rondon Pacheco, em Uberlândia*

*FERNANDA ODILLA*
ENVIADA ESPECIAL A UBERLÂNDIA (MG)

*SOFIA FERNANDES *
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM UBERLÂNDIA (MG)

O general Emílio Garrastazu Médici assumiu a Presidência do Brasil em
outubro de 1969 disposto a revogar o AI-5, sigla que entrou para a história
como o ato institucional que escancarou a ditadura no país. Médici desistiu
da idéia e assumiu uma posição linha-dura tão logo constatou, em consultas
informais, que não teria o apoio de importantes aliados.

A cúpula das Forças Armadas achava cedo demais para extinguir o texto que
abriu a possibilidade de fechar o Congresso, permitiu intervenção do governo
federal nos Estados, institucionalizou a censura e suspendeu o habeas corpus
em casos de crimes políticos.

A primeira versão do AI-5, contudo, era muito mais radical. Extinguia o
Legislativo em todo país e fechava o Supremo Tribunal Federal. Essa versão
foi rechaçada pelo então presidente Arthur da Costa e Silva (1967-1969), que
exigiu um texto que não fosse "dose para cavalo" e só aceitou assiná-lo
porque temia ser deposto.

O autor dessas revelações, até hoje compartilhadas em detalhes somente com
poucos confidentes, é Rondon Pacheco, ex-chefe da Casa Civil do governo
Costa e Silva. Aos 89 anos, ele é a única testemunha viva que participou de
todo o processo de confecção do AI-5, no dia 13 de dezembro de 1968.

Com as credenciais de quem redigiu o texto final do ato, ajudou a fazer uma
Constituição que facilitaria a revogação do ato em 1969 -mas não foi
outorgada porque Costa e Silva adoeceu- e participou da escolha da segunda
chapa presidencial depois do movimento de 1964, Pacheco revelou à Folha
bastidores daquele capítulo da história da ditadura brasileira.

"O presidente Costa e Silva me disse isso várias vezes em seus despachos,
que ele às vezes não dormia pensando nos problemas do outro dia", recorda
Rondon Pacheco, dizendo que Costa e Silva assumiu o governo gerenciando
problemas. Havia, segundo Pacheco, uma conspiração sendo tramada pelo
ex-governador Carlos Lacerda no Hotel Glória (RJ).

"Não foi um governo tranqüilo, apesar de estar perfeitamente
constitucionalizado", diz. Mas afirma que a Constituição de 1967 assustou o
autodenominado "governo revolucionário". Para o ex-chefe da Casa Civil, foi
a falta de habilidade política que transformou dois curtos discursos do
deputado Márcio Moreira Alves -que criticou militares no plenário da Câmara-
na maior crise do governo. "Coisa do Márcio, demagogo", avalia Pacheco.
Ofendidos, os militares exigiram a cassação do deputado. Pacheco conta que
Costa e Silva acordou uma solução intermediária para aprovar uma licença
para o deputado.

"Se tivesse havido a punição conforme já estava combinado, não teria havido
nada [o AI-5]", sustenta. Mas o ministro Gama e Silva (Justiça) decidiu, à
revelia, trocar os integrantes da comissão que analisava o caso para aprovar
a cassação. O ministro só não foi demitido porque era amigo do presidente,
segundo Pacheco.

A cassação, contudo, foi rejeitada pelo plenário da Câmara por 216 votos a
141, conforme ata da sessão de 12 de dezembro de 1968. Diante da derrota no
Congresso, as condições para um golpe dentro do golpe estavam postas, na
visão do governo. O presidente tomou a decisão de "nada decidir" naquela
noite de quinta-feira. Nem sequer recebeu companheiros de farda, que já
tramavam uma proposta para reforçar o poder das Forças. Convocou reunião
para as 11h.

Na manhã daquela sexta-feira 13, começava a fase mais dura da ditadura
brasileira. "Tudo foi decidido pela manhã. Quando foi para o Conselho
[Nacional] de Segurança, o problema já tinha sofrido um despacho saneador do
presidente", recorda o ex-ministro.

Foi convocado para a reunião um seleto grupo que ouviu do presidente a
intenção de fechar o Congresso e editar um ato semelhante ao AI-1, que
permitiu a cassação e suspensão dos direitos políticos de quem era contra o
sistema.

"Gama e Silva estava muito agitado. Isso eu notei. Ele chegou, sentou na
cadeirinha do ministro da Justiça e disse: "O ato, presidente, está pronto".
Ele estava certo que ia fazer o presidente engolir o ato", revela Pacheco. A
primeira versão do AI-5 proposta "era um ato terrível", nas palavras de
Pacheco. Demitia todos os ministros do Supremo, dissolvia o Congresso e
todas as Assembléias Legislativas. A intervenção federal seria no país
inteiro, inclusive com a indicação de todos os prefeitos.

Rondon Pacheco guarda na memória detalhes daquela primeira reunião do dia no
Palácio das Laranjeiras, mas revela ojeriza à versão ultra-radical do AI-5
lida por Gama e Silva. Diz que não quer nem saber que fim levou aqueles
papéis.

Antes de vetada pelo presidente, a primeira versão dividiu os seis
integrantes da reunião (veja quadro). A nova proposta foi apresentada no
início daquela tarde. Caberia a Rondon Pacheco elaborar o texto final. "O
Gama e Silva levou um projeto e eu fui expurgando".

Enquanto fechavam o texto, chegaram os membros do Conselho Nacional de
Segurança para a reunião das 17h, que sacramentou o AI-5. O vice-presidente
Pedro Aleixo, segundo Pacheco, trouxe uma proposta para decretar o estado de
sítio e uma carta de renúncia, se Costa e Silva desistisse.

Costa e Silva permaneceu no poder, mas elaborou um plano: a outorga de uma
nova Constituição permitiria acabar com o AI-5 no dia 7 de setembro de 1969.
Mas adoeceu e foi afastado do cargo dez dias antes de executar o cronograma.

O presidente que sucedeu Costa e Silva também pensou em pôr fim ao ato,
afirma Pacheco: "O Médici quis revogar o ato e não teve apoio. O Exército
achava cedo". Escalado por Médici para presidir a Arena e depois governar
Minas, Pacheco conta que o presidente recém-empossado fez consultas sobre o
assunto. "Médici achou que talvez fosse melhor fazer o teste: revogar o AI-5
para ver se eles paravam com a agitação." Mas o teste nunca foi feito.
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Fabrício Augusto Souza Gomes
fabricio.gomes@gmail.com
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Revista/Chamada de artigos e lançamento

segunda-feira, 24 de novembro de 2008


Revista/Chamada de artigos e lançamento

- A Revista Historia & Luta de Classes recebera' contribuicoes para o seu oitavo numero, que tera' como tema a questao agraria e a reforma agraria.
O prazo para encaminhamento de artigos e resenhas para o e-mail historiaelutadeclasses@uol.com.br se encerra em 30/3/2009. O numero 7 da revista (Dossie Estado e Poder) sera' lancado no inicio de 2009.

- "Dilemas, revista de estudos de conflito e controle social"
(NECVU/IFCS/UFRJ), lancou seu Vol. 1, referente ao periodo de Jul/Ago/Set, 2008. Mais informacoes em http://www.dilemas.ifcs.ufrj.br/.
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Revista Reflexões - Chamada de trabalhos

sábado, 18 de outubro de 2008


A Revista Reflexões, publicação do corpo discente da graduação em História da UEL, abre chamada de trabalhos para seu primeiro número.

Nossa proposta é constituir um espaço onde os alunos de graduação em História possam publicar seus trabalhos, de forma que (1) contribuam para a discussão historiográfica e (2) entrem em contato com outras pesquisas desenvolvidas em outros lugares do país. Assim, esperamos proporcionar um ambiente de troca de experiências e de verdadeiro exercício para os novos pesquisadores que estão sendo formados nas mais diversas universidades do país. A revista terá periodicidade semestral, publicada em suporte eletrônico.

Para publicação no primeiro número, as contribuições deverão ser enviadas até 12 de abril de 2009, seguindo as normas especificadas no site, para o e-mail trabalhos@reflexoesuel.com.br.
O dossiê temático do primeiro número será "Memória"; além do dossiê, também serão aceitos artigos de tema livre, resenhas, traduções e entrevistas.

Para publicação no segundo número, as contribuições deverão ser enviadas até 9 de agosto de 2009, seguindo as normas especificadas no site, para o e-mail trabalhos@reflexoesuel.com.br.
O dossiê temático do segundo número será "Identidade"; além do dossiê, também serão aceitos artigos de tema livre, resenhas, traduções e entrevistas.

Mais detalhes, as normas de publicação e outras informações pertinentes estão disponíveis em nosso site (www.reflexoesuel.com.br), e em caso de qualquer dúvida, basta enviar um e-mail para contato@reflexoesuel.com.br.

Agradecemos a atenção e aguardamos ansiosamente as contribuições.

Atenciosamente,
Conselho Editorial.
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"No tempo do Onça" e a Política brasileira

segunda-feira, 6 de outubro de 2008


*www.emendasesonetos.blogspot.com/*

7.02.2007 "SENHOR, NESTA TERRA TODOS ROUBAM. SÓ EU NÃO ROUBO"


Luís Vahia Monteiro foi empossado governador da capitania do Rio de Janeiro
em 10 de maio de 1724, sucedendo Aires de Saldanha. Coronel de infantaria em
Portugal, ele vinha para deixar seu nome registrado na História do Brasil
apenas por ser honesto e rigorosíssimo no cumprimento da Lei.

A simpatia com que foi recebido pelas autoridades logo se transformou em
desconfiança quando começou a contrariar interesses dos vereadores. Durante
seus sete anos de governo, receberia o ódio dos poderosos e a confiança da
população.

Luís Vahia Monteiro restraurou as fortificações da cidade, abalada pelas
invasões francesas de 1710 e 1711, organizou a arrecadação e o emprego
eficiente dos recursos da Fazenda Real e realizou uma devassa no transporte
de ouro de Minas Gerais ao Rio de Janeiro.

Mas o que fez realmente o governador cair nas graças do povo foi a sua
posição diante da crescente insegurança nas ruas. Luís Vahia Monteiro "tomou
imediatas providências no sentido de livrar a cidade da malta de malandros,
desordeiros e jogadores, não poupando os que, de qualquer forma, perturbavam
a vida social e o sossego dos lares. Com os ladrões então era de severidade
implacável". (1)

Consta também que era extremamente severo com os poderosos, incluindo aí
vereadores, jesuítas, ouvidor, juiz de fora, o que lhe valeu um grande
desgaste, pois "não raro as autoridades contavam com as boas graças dos
protetores da metrópole". (1)

Como a onça era o animal mais temido na época, principalmente por causa dos
ataques aos bandeirantes e aos que se aventuravam nas florestas em busca do
ouro nas Minas Gerais, este foi o apelido de Luís Vahia Monteiro, tal o medo
que bandidos de toda espécie, de poderosos a pé-rapados, tinham dele.

Daí veio daí a expressão "No tempo do Onca", uma das mais conhecidas do
imaginário popular e que até hoje, quase três séculos depois, ainda é citada.

Perseguido politicamente, Luís Vahia Monteiro acabou afastado do poder pela
Câmara em 1732, já em estado de saúde precário, sofrendo de constantes crises epiléticas. Foi substituído pelo mestre de campo Manuel de Freitas da Fonseca e morreu no mesmo ano.

Sua frase escrita numa carta ao rei D. João V entraria para a História:
"Senhor, nesta terra todos roubam. Só eu não roubo".

*LIVROS CONSULTADOS:

(1) - O Rio de Janeiro no tempo do Onça - Alexandre Passos. - Coleção Cidade
do Rio de Janeiro - 1961 - Estado da Guanabara.

(2) - Crônicas da cidade do Rio de Janeiro - Noronha Santos - Padrão
Inelivro - 1981 - Rio de Janeiro RJ.

(3) - A Praça Mauá na memória da cidade do Rio de Janeiro - Paulo B. Cezar e
Ana Viveiros de Castro - Ex Libris/IPLAN-RIO/João Fortes Engenharia - 1989 -
Rio de Janeiro - RJ.*

--
Paulo Clarindo
Grupo de Pesquisa do Subúrbio Carioca
A. C. Amigos do Patrimônio
amigosdopatrimonio@gmail.com
www.amigosdopatrimonio.blogspot.com
(21) 9765-6038 / 2224-6184 / 3769-4221
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Resgate da memória do Holocausto no Brasil

quinta-feira, 28 de agosto de 2008


Resgate da memória do Holocausto no Brasil
Portal na internet reunirá documentos inéditos que revelam políticas de Estado anti-semitas do país

Entre 1937 e 1948, o Brasil teve políticas de Estado anti-semitas que comprometeram a vida de muitos judeus sobreviventes do Holocausto. A imigração era regulamentada por circulares secretas que proibiam a emissão de vistos para judeus e exigiam passagens de ida e volta para que eles pudessem entrar no país. Esses documentos estão sendo analisados pela equipe da historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, da Universidade de São Paulo, e serão disponibilizados em um portal na internet – o Arquivo Virtual sobre Holocausto e Anti-Semitismo (Arqshoah).

Essa iniciativa reunirá informações sobre a comunidade judaica radicada no Brasil durante o período de ascensão do nazi-fascismo na Europa. O portal será lançado em 27 de janeiro de 2009, Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Estarão disponíveis ali entrevistas com refugiados e parentes, livros de memórias, rotas de fuga, uma “galeria dos justos” com os brasileiros que ajudaram a salvar judeus, notícias da época, produções artísticas sobre o Holocausto, livros e artigos brasileiros de orientação anti-semita.

Uma equipe de pesquisadores está trabalhando na digitalização de documentos oficiais disponíveis no Arquivo Histórico do Itamaraty e no Arquivo Nacional. Entre o material selecionado, estão mais de 20 circulares secretas anti-semitas editadas a partir de 1937, durante o Estado Novo, incluindo outras versões produzidas pelo governo Dutra.

“Surpreendi-me com uma circular de 1948 que não deixa dúvidas sobre a postura intolerante do Brasil”, afirma Tucci. "Mesmo após a divulgação das atrocidades praticadas pelos nazistas durante o Holocausto, o país continuou a proibir a emissão de vistos para judeus." A historiadora conta que, entre 1937 e 1948, muitos judeus entravam no Brasil com visto de católicos ou turistas e com documentos falsos para fugir das perseguições e da morte planejada pelos nazistas e por países colaboracionistas.

Tucci ressalta que tais medidas eram mantidas secretas pelo Itamaraty e pelo Ministério da Justiça e Negócios Interiores, o que contribuiu para difundir uma imagem deturpada do Brasil como nação solidária à causa dos refugiados judeus frente a entidades internacionais. “Nos textos de diplomatas, médicos, psiquiatras e juristas, fica claro que eles eram contra a entrada de sobreviventes dos campos de concentração, sob a alegação de que eles não tinham condições físicas e mentais para fazer parte da população brasileira, que precisava de pessoas saudáveis e aptas para o trabalho”, relata a historiadora.

Trajetória de vida dos refugiados

Boletim do Comitê Auxiliar do Joint editado em 1936. Essa organização teve importante papel no salvamento de milhares de refugiados do nazi-fascismo que buscaram refúgio nas Américas, em Portugal e até na China (foto: Arquivo Tucci/SP).



A equipe liderada por Tucci está realizando um inventário dos judeus e ciganos refugiados do nazismo no Brasil. Trata-se do primeiro mapeamento daqueles que buscaram abrigo no país fugindo das perseguições raciais sustentadas pelos regimes nazi-fascistas.

Segundo a historiadora, o número de refugiados em nosso país pode chegar a 18 mil, mas essa contagem pode estar subestimada em função dos vistos concedidos aos ‘católicos’, turistas ou ‘em trânsito’. “Com o inventário dos vistos negados, poderemos também ter uma dimensão da aplicação das circulares secretas que garantiram milhares de indeferimentos”, completa Tucci.

O grupo está entrevistando sobreviventes ou seus descendentes e analisando listas de passageiros de navios, assinatura de vistos nos passaportes, fotografias e outros documentos. O inventário está sendo feito com o preenchimento de formulários distribuídos entre as comunidades judaicas para a identificação dos sobreviventes de campos de concentração e de seus familiares ou conhecidos. Quem tiver informações sobre sobreviventes, brasileiros que ajudaram judeus refugiados ou registros da época pode entrar em contato com a equipe do projeto pelo endereço eletrônico arqshoah@usp.br ou pelo telefone (11) 3091-8598.

As entrevistas serão disponibilizadas no portal Arqshoah, bem como as rotas de fuga dos refugiados e seus livros de memórias. O portal terá ainda a seção “Ação Educativa”, com material didático sobre o Holocausto disponível para professores. “Precisamos introduzir o debate sobre perigo das idéias racistas em sala de aula, pois essa iniciativa incentiva nossos jovens a ter uma postura mais tolerante e democrática frente ao diferente”, afirma Tucci.

O estímulo principal que move sua equipe é impedir que a memória dos sobreviventes do Holocausto radicados no Brasil caia no esquecimento. “Há um silêncio proposital sobre temas como o Holocausto”, avalia Tucci. “Isso foi minimizado com a abertura de alguns arquivos, mas dependemos ainda de uma postura do governo brasileiro para que sejam abertos outros, especialmente os da ditadura militar. É uma questão urgente que exige práticas democráticas para o fortalecimento de nossos ideais de cidadania”.


Tatiane Leal
Ciência Hoje On-line
26/08/2008
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Lei inclui cultura indígena na grade escolar

quarta-feira, 16 de abril de 2008


A partir de agora a grade das universidades também terão que se adequar a nova realidade, o que afinal é muito bom. Não só a questão indígena, mas também a questão da colonização e da escravidão deveria ser revista.

Lei inclui cultura indígena na grade escolar

Indios da Tribo Karirí-Xocó participam de projeto nas escolas de Itu.

Uma lei sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 24/03/08 vai incluir no currículo das escolas públicas e particulares de nível fundamental e médio o ensino obrigatório de história e cultura indígena brasileira. A implementação da lei deve começar a vigorar até o ano de 2010.

Para a diretora executiva do Instituto Indígena Brasileiro de Propriedade Intelectual, Lucia Fernanda Jófej, a lei pode ajudar a corrigir os erros históricos de omissão ou equívoco das escolas sobre a cultura indígena. “Existindo uma obrigação, vai haver uma demanda. Existindo uma demanda, então vai haver mais produtos, mais serviços, informações mais claras nesse sentido”, diz Lucia que critica a forma como a história do Brasil é ensinada. “A maior parte das escolas conta a história de um ponto de vista eurocêntrico”, defende.
“Dizer que o Brasil foi descoberto é, no mínimo, um eufemismo. Dizem que a estimativa era de 1 a 5 milhões de índios no país. Hoje temos 700 mil. Onde essas pessoas foram parar? O que houve foi um massacre sem precedentes”, afirma.
A FASAM - Familiares e Amigos da Saúde Mental de Itu - lidera em Itu o Projeto “Resgatando as culturas indígenas”, com o objetivo de promover uma reflexão sobre a importância do conhecimento e o respeito à história e origem brasileira. O programa consiste em oferecer aos alunos de diversas escolas o contato direto com a cultura indígena, através do encontro com o Pajé Tchydjo da Tribo Karirí-Xocó – Alagoas, mostrando a simplicidade da vida em sua comunidade em contraste com a sabedoria e riqueza cultural, evidentes no respeito a todo ser vivo e principalmente ao meio ambiente.

Em agosto de 2007, como parte do programa “Cultura & Música para todos os Especiais” que ocorreu em Itu, no IBAO (Instituto Borges de Artes e Ofícios), o Pajé Tchydjo se apresentou com os demais integrantes, representando todo povo indígena.

“Acreditamos que o resgate histórico cultural dos grupos indígenas é muito importante, pois ao longo dos tempos, essas etnias foram perdendo parte de sua cultura, deixando de falar suas línguas originais, usando roupas civilizadas, deixando de caçar e pescar para se alimentarem de mantimentos industrializados e alguns vindo morar na cidade. Sendo assim, os índios devem retornar às suas culturas o mais rápido possível e o nosso papel é o de ajudá-los nesta importante tarefa de resgate cultural. Afinal de contas, a história indígena é nossa história também!”, afirma a presidente da Fasam, Vera Portela.

Fonte: www.itu.com.br
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